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Este é um breve comentário
sobre o livro do autor Camon, fruto de uma derivação de
sua atividade junto a pacientes vítimas da tentativa de suicídio.
Foi através da busca de uma melhor compreensão do fenômeno
do suicídio que fez com que ele se interessa-se pelo tema da
solidão.
No início da sua investigação, ficou muito surpreso
com o grande número de pessoas que são levadas ao desespero
pela solidão.
A partir daí seu objetivo foi de polemizar, discutir, direcionar
discussões para outros aspectos do conhecimento relacionados
ao tema.
A proposta é embasada na Psicoterapia Existencial-Fenomenológica,
pois é na ótica existencial que a realidade do existir
encontra o verdadeiro dimencionamento de sua própria amplitude,
fundamentando os sentimentos humanos de uma forma que transcende a própria
teoria.
A busca do autor é por uma teoria viva onde os sentimentos e
emoções sejam fatos vivos e verdadeiros, longe das digressões
teóricas que se perdem no academicismo.
O que ele espera é conduzir uma reflexão sobre solidão
de maneira que cada um faça sua própria síntese
sobre os fatos.
Solidão, Configuração
Real da Ausência do Outro
A solidão, na maioria das vezes,
é diretamente associada com o desespero, sofrimento e com o suicídio.
É como se a grande maioria das pessoas não agüentasse
a condição de ser só. E tudo então torna-se
desesperador. A prova disto são os bares noturnos das grandes
cidades, cada vez mais repletos de pessoas solitárias que buscam
o outro, ou as milhares de chamadas telefônicas recebidas pelos
serviços existentes como o CVV (Centro de Valorização
da Vida), "ou até mesmo as salas de bate papo visitadas
cada vez mais por pessoas solitárias". Há horas em
que se torna premente buscar o outro, mesmo que o outro seja representado
por uma voz desconhecida ao telefone "ou por frases digitadas no
computador".
É verdade que vivemos um avanço ímpar no desenvolvimento
da tecnologia das comunicações. Mas ao mesmo tempo em
que vivemos esse avanço tecnológico, igualmente assistimos
ao total empobrecimento das relações interpessoais. Isso
faz com que não seja desprezível o fato de que um número
cada vez maior de pessoas se queixarem de solidão.
Por outro lado, nas grandes cidades é comum as pessoas que moram
num prédio não saberem sequer quem são os vizinhos
de porta, pois cada um se conserva insensível às alegrias
e ao sofrimento do outro.
As pessoas vivem praticamente acuadas, com medo. Olhar o outro já
é quase uma agressão, e seguramente esse distanciamento
também vai extremando a solidão.
É importante considerar que a ausência faz com que o outro
se torne muito mais presente do que em situações reais
de presença física. O outro se torna presente pela própria
ausência, se tornando necessário.
O outro existe dando conceituação a própria vida
do sujeito. O que o sujeito percebe através de suas experiências
são os sentimentos do outro, as idéias do outro e condutas
do outro. Na medida que uma pessoa depende da convivência com
o outro, ela vai procurá-lo na tentativa de estabelecer uma relação
interna e não uma simples exterioridade.
Já o outro é procurado para o suprimento das carências
da pessoa, da necessidade de conhecer a si mesma e sentir-se amada,
desejada.
Assim, a solidão é a configuração extremada
da ausência do outro e diante dessa situação a pessoa
busca o outro dentro do seu isolamento a fim de definir o seu próprio
ser. Se não houvesse o outro seria impossível segregar-se
ou isolar-se.
Esse tipo de isolamento não pode ser visto como significação
de indiferença para com os outros. Muitos afastamentos se dão
de forma deliberada, não por indiferença, mas, ao contrário,
pelo fato da consciência do outro ser tão forte que não
é possível suportar sua presença física.
Mas, afinal, qual é o significado da solidão?
A solidão, é na verdade, uma condição que
faz parte da própria vida do ser humano. Só que em certos
momentos a percebemos mais agudamente, e não sabemos como lidar
com ela. O outro tem o poder de iludir, fazendo com que a solidão
pareça distante quando de sua presença, como por exemplo
na relação sexual, em que os dois tem a sensação
de serem apenas um, em que se sente a possibilidade de uma união.
Contudo, cedo ou tarde chega a hora de encarar a conclusão inevitável
de que cada um é um.
O outro faz com que o sujeito se sinta inserido, sendo parte de um todo,
de uma família, de um grupo de amigos, de uma comunidade. Mas
chegará o ponto em que o sujeito tomará consciência
de que para suas realizações pessoais ele depende das
suas próprias possibilidades. Por mais que se viva junto do outro
que se ama, por mais que se interaja socialmente, não será
possível evitar a certeza de ser só.
Não se trata de negar a existência e a interação
com o outro, e sim de mostrar a nossa condição de ser
só.
Portanto, entrar em contato com a solidão não é
nada fácil. Há momentos em que as perspectivas da condição
humana se perdem e o sofrimento vence. Mas ao compreendê-la, ao
constatar que cada um é único, sua própria história,
seu próprio percurso, sua própria biografia, sua maneira
própria de buscar sentido para sua vida, também se percebe
que esta é a beleza e a grandeza da condição humana.
Nem sempre são felizes ou bem sucedidas as tentativas de aliviar
a solidão a qualquer custo.
Hoje, muitas pessoas dispostas a procurar companhia encontram alguém
num bar, saem, conversam e até mesmo se relacionam sexualmente,
pois o outro é procurado para que, ainda que por breves momentos,
possa ter significado para a pessoa. Isto tudo inevitavelmente levará
esta pessoa a um estado que pode ser perfeitamente definido como ressaca
moral, pois se essa pessoa tiver alguma lucidez perceberá que
para suprir uma carência, procurou alguém que nada tinha
a ver com sua carência e até mesmo com sua realidade existencial.
O resultado é simplesmente uma carência ainda mais dolorosa,
com sensação de solidão crescendo e o vazio da
sua volta ainda maior na realidade. As várias saídas de
si mesmo mostram ao sujeito que ele não é apenas um ser
com sofrimentos, mas também com significados. É o sentido
da própria existência que se está buscando quando
se quer chegar à uma realização profissional, a
crescimentos afetivos e emocionais, contrapondo essas buscas aos sofrimentos
que a existência em si apresenta.
Vivemos num mundo onde o sofrimento e o desespero fazem parte do cotidiano
e a dor existencial é algo mais do que uma simples abstração
teórica e insólida à nossa própria realidade.
Até mesmo muitos dos sofrimentos físicos relacionam-se
diretamente com a nossa forma de vida. É o contraponto que a
vida nos dá propiciando momentos arrebatadores, e igualmente
apresentando o desespero do isolamento e da constatação
de ser só.
Portanto, este livro mostra a importância de se conscientizar
da necessidade da criação de relações humanas
mais sadias e que apresentem em seu bojo a busca da dignidade humana.
A solidão é determinante da condição e necessidade
do outro em nossas vidas. Certamente ao analisar cuidadosamente os aspectos
que evoluem a solidão, estarão abertos não apenas
para o entendimento do sofrimento, mas da nossa própria condição
de seres solitários.
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V. A Angerami - Camon, Solidão - A Ausência do Outro
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